quinta-feira, 1 de abril de 2021

ILUSTRES DESCONHECIDAS


 

                                         ILUSTRES  DESCONHECIDAS

                                                                          Adilson Nunes de Oliveira

                                                                            Professor e museólogo

Recebi, há poucos dias , o livro “Atelier de  Poemas” , obra de Arlita Portela de Azambuja .  Trata-se de uma poetisa pedritense, residente em Porto Alegre , Assistente Social e professora da PUC RS.  Escritora,  publicou anteriormente “Estranha Camaradagem” – um livro de crônicas  e poesias . Pois bem, Arlita integra um grupo de poetisas que se autodenominam Ilustres Desconhecidas , que aproveito  como título  deste texto ,  e serve como uma reflexão  neste mês  de março , em que se  celebra o Dia Internacional da Mulher.

Como pretenso historiador , sinto a preocupação   latente com a trajetória das mulheres, sempre preteridas, como resquícios de nossa sociedade patriarcal. Os historiadores buscam,  há tempos,  tirar da penumbra as minorias, os desprivilegiados , os anônimos...   As histórias locais não são diferentes e aí é que se  incluem nossas “Ilustres desconhecidas”

Nas minhas pesquisas como museólogo , pouco ou quase nada se tem sobre as mulheres ilustres de Dom Pedrito , exceto raríssimas exceções , muitas vezes sucintas.

Lembro  algumas delas e peço  que  sugiram outros nomes – quer do passado, quer do presente --  e enviem ao Museu Paulo Firpo , dados  biográficos destas e de outras  como :  professoras  Arminda Machado de Freitas, da 1ª escola  pública mista;  Alda Seabra, Dulce da Fonte Abreu, Alzira Barcelos, alfabetizadoras; Heloisa Louzada , autora de um livro de matemática ;  Lêda do Amaral Freire e Maria Helena Dutra ,  nossas pioneiras biblioteconomistas ; Madalena Martins , supervisora do curso de magistério; Maria Veiga Miranda, pertinaz entusiasta da cultura e língua francesa;  Renny Paz Louzada, Zany Jardim  e Maria Lopes,  nomes destacados no ensino de música em Dom Pedrito ;  as beneméritas   Carlota Quadros de Atahyde e Risoleta Quadros, doadoras de terrenos para escolas ; Célia Vicente y Silva, da LBA e fundadora do Asilo  Municipal; Maria Francisca Carneiro da  Fontoura , doadora do terreno da antiga Santa Casa de Caridade;  Joaninha Brum e Joaninha Assis Brasil, Suzana Silva Correa,  intimamente vinculada à  Liga Feminina de Combate ao Câncer; Maria Yara Leite Meireles, do Centro de Apoio  à Vida;  lideres comunitárias  como Perciliana  Marques, Universina ( vó Vecina )  Madruga , Vó   Mangacha (  também benzedeira ) e mais  Florisbela ( Belinha ) Costa , catequista incomparável ; Castorina ( Dadá) Cruz D’Mutti – proprietária do Jornal Ponche Verde e uma das primeiras jornalistas do Rio Grande do Sul ;  advogadas e poetisas como Gisele Bueno Pinto – ativista cultural ---   e Solange  Royes , professora  e primeira Vereadora de Dom Pedrito; Maria  Silva, afamada parteira de gerações; Amália Bicker - supostamente a primeira mulher pedritense a atuar no teatro local --  e ainda   um grupo de mulheres , do início do século XX , chamado  “Sociedade das Violetas”, que se  aliaram ao movimento de  criação da Santa Casa de Caridade . Mulheres do passado, sim. Mulheres do  presente,  cito apenas Marília Alencastro Maia – no receio de cometer injustiças - cujo figura exponencial   sempre é  e será lembrada como uma das  intelectuais de nossa era, entre  tantas outras. Santas mulheres  que o povo consagrou como Lourdes Leon;  “mulheres da  vida” Paulina , Tivica e Moza ; populares como Joana das Casas  , a Getulista , eterno luto pelo presidente , Fermina Pedrosa , origem da alocução  popular  ...  mulheres que sacrificaram suas  vidas e juventude  para sustentar  família  e filhos, manter os casamentos – caladas e sofridas .

E o que dizer da  Viúva Flora ? Outra ilustre desconhecida ! Muito pouco .

Ângelo Dourado, médico e combatente de 1893, no seu livro “Voluntários do Martírio”  ( p. 408)  referindo-se   ao apoio  a feridos  , na região da fronteira,   lembra   a “viúva Flora dos Santos, que morando mesmo junto da linha,  não só tem visto o estrago  de seus gados , pelo roubo (...) como é a sua casa  um asilo  para todos que a buscam . Depois do Combate da Estiva , sua casa tornou-se  um hospital de sangue , cuidando ela mesma  dos feridos , com uma Irmã de Caridade , até que os pudessem conduzir  para as  enfermarias”.

Imaginemos , pois , uma casa de campanha, com duas mulheres , recebendo  homens feridos  a todo o instante.  Com que recursos lutariam ? em que condições  higiênicas ?  Ataduras, chás, ungüentos caseiros, medicina popular, rezas e benzeduras, certamente.  Em algum momento faltaram leitos , alguém foi enterrado, ali mesmo, precariamente, à volta da casa.  Muitos sobreviveram,  outros   não tiveram a mesma sorte.  Mas todos, creio , receberam igual  atenção.

Onde está essa história ? quem são netos ou bisnetos da Viúva Flora ?  O que eles ouviram  e contam ?

Relacionemos esses fatos do passado ao presente da pandemia e certamente não faltarão conclusões , ainda que em menores proporções .

 O nome de Viúva  Flora  foi dado à ponte e ao passo da estrada municipal  que vai a Bagé , pelo Passo Fundo  - arroio do Santa Maria Chico - cerca de 10 km da sede do município.

Pois, na figura da Viúva Flora  e sua companheira – a Irmã de Caridade   da qual nem o nome restou -  recebam, entre aplausos,   mulheres ilustres e  desconhecidas , a  homenagem do Museu Paulo Firpo  e deste autor ,   profissionais da saúde , atuantes  incansáveis na luta  diária contra esse terrível inimigo invisível do século  XXI .

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Texto produzido  no DIA INTERNACIONAL DA MULHER ,  março de 2021

Ordem das imagens :  Abertura : Sociedade das Violetas ,as demais  Profa. Marília  Alencastro Maia, Fermina Pedrosa,  Maria Yara Leite Meireles e Giseli Bueno Pinto