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ILUSTRES DESCONHECIDAS
ILUSTRES DESCONHECIDAS
Adilson Nunes de Oliveira
Professor e museólogo
Recebi, há poucos dias , o livro “Atelier de Poemas” , obra de Arlita Portela de Azambuja
. Trata-se de uma poetisa pedritense,
residente em Porto Alegre , Assistente Social e professora da PUC RS. Escritora,
publicou anteriormente “Estranha Camaradagem” – um livro de
crônicas e poesias . Pois bem, Arlita
integra um grupo de poetisas que se autodenominam Ilustres Desconhecidas , que aproveito como título
deste texto , e serve como uma
reflexão neste mês de março , em que se celebra o Dia Internacional da Mulher.
Como pretenso historiador , sinto a preocupação latente com a trajetória das mulheres,
sempre preteridas, como resquícios de nossa sociedade patriarcal. Os
historiadores buscam, há tempos, tirar da penumbra as minorias, os
desprivilegiados , os anônimos... As
histórias locais não são diferentes e aí é que se incluem nossas “Ilustres desconhecidas”
Nas minhas pesquisas como museólogo , pouco ou quase nada se
tem sobre as mulheres ilustres de Dom Pedrito , exceto raríssimas exceções ,
muitas vezes sucintas.
Lembro algumas delas e
peço que
sugiram outros nomes – quer do passado, quer do presente -- e enviem ao Museu Paulo Firpo , dados biográficos destas e de outras como : professoras
Arminda Machado de Freitas, da 1ª escola
pública mista; Alda Seabra, Dulce
da Fonte Abreu, Alzira Barcelos, alfabetizadoras; Heloisa Louzada , autora de
um livro de matemática ; Lêda do Amaral
Freire e Maria Helena Dutra , nossas
pioneiras biblioteconomistas ; Madalena Martins , supervisora do curso de
magistério; Maria Veiga Miranda, pertinaz entusiasta da cultura e língua
francesa; Renny Paz Louzada, Zany
Jardim e Maria Lopes, nomes destacados no ensino de música em Dom
Pedrito ; as beneméritas Carlota Quadros de Atahyde e Risoleta
Quadros, doadoras de terrenos para escolas ; Célia Vicente y Silva, da LBA e
fundadora do Asilo Municipal; Maria
Francisca Carneiro da Fontoura , doadora
do terreno da antiga Santa Casa de Caridade;
Joaninha Brum e Joaninha Assis Brasil, Suzana Silva Correa, intimamente vinculada à Liga Feminina de Combate ao Câncer; Maria
Yara Leite Meireles, do Centro de Apoio
à Vida; lideres comunitárias como Perciliana Marques, Universina ( vó Vecina ) Madruga , Vó
Mangacha ( também benzedeira ) e
mais Florisbela ( Belinha ) Costa ,
catequista incomparável ; Castorina ( Dadá) Cruz D’Mutti – proprietária do
Jornal Ponche Verde e uma das primeiras jornalistas do Rio Grande do Sul ; advogadas e poetisas como Gisele Bueno Pinto
– ativista cultural --- e Solange Royes , professora e primeira Vereadora de Dom Pedrito;
Maria Silva, afamada parteira de
gerações; Amália Bicker - supostamente a primeira mulher pedritense a atuar no
teatro local -- e ainda um grupo de mulheres , do início do século
XX , chamado “Sociedade das Violetas”,
que se aliaram ao movimento de criação da Santa Casa de Caridade . Mulheres
do passado, sim. Mulheres do
presente, cito apenas Marília
Alencastro Maia – no receio de cometer injustiças - cujo figura
exponencial sempre é e será lembrada como uma das intelectuais de nossa era, entre tantas outras. Santas mulheres que o povo consagrou como Lourdes Leon; “mulheres da
vida” Paulina , Tivica e Moza ; populares como Joana das Casas , a Getulista , eterno luto pelo presidente ,
Fermina Pedrosa , origem da alocução
popular ... mulheres que sacrificaram suas vidas e juventude para sustentar família
e filhos, manter os casamentos – caladas e sofridas .
E o que dizer da Viúva
Flora ? Outra ilustre desconhecida ! Muito pouco .
Ângelo Dourado, médico e combatente de 1893, no seu livro
“Voluntários do Martírio” ( p. 408) referindo-se
ao apoio a feridos , na região da fronteira, lembra
a “viúva Flora dos Santos, que
morando mesmo junto da linha, não só tem
visto o estrago de seus gados , pelo
roubo (...) como é a sua casa um
asilo para todos que a buscam . Depois
do Combate da Estiva , sua casa tornou-se
um hospital de sangue , cuidando ela mesma dos feridos , com uma Irmã de Caridade , até
que os pudessem conduzir para as enfermarias”.
Imaginemos , pois , uma casa de campanha, com duas mulheres ,
recebendo homens feridos a todo o instante. Com que recursos lutariam ? em que
condições higiênicas ? Ataduras, chás, ungüentos caseiros, medicina
popular, rezas e benzeduras, certamente.
Em algum momento faltaram leitos , alguém foi enterrado, ali mesmo, precariamente,
à volta da casa. Muitos
sobreviveram, outros não tiveram a mesma sorte. Mas todos, creio , receberam igual atenção.
Onde está essa história ? quem são netos ou bisnetos da Viúva
Flora ? O que eles ouviram e contam ?
Relacionemos esses fatos do passado ao presente da pandemia e
certamente não faltarão conclusões , ainda que em menores proporções .
O nome de Viúva Flora
foi dado à ponte e ao passo da estrada municipal que vai a Bagé , pelo Passo Fundo - arroio do Santa Maria Chico - cerca de 10
km da sede do município.
Pois, na figura da Viúva Flora e sua companheira – a Irmã de Caridade da qual nem o nome restou - recebam, entre aplausos, mulheres ilustres e desconhecidas , a homenagem do Museu Paulo Firpo e deste autor , profissionais da saúde , atuantes incansáveis na luta diária contra esse terrível inimigo invisível
do século XXI .
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Texto produzido no DIA INTERNACIONAL DA MULHER , março de 2021
Ordem das imagens : Abertura : Sociedade das Violetas ,as demais Profa. Marília Alencastro Maia, Fermina Pedrosa, Maria Yara Leite Meireles e Giseli Bueno Pinto
